Existe uma queixa recorrente dos pais em relação à letra de seus filhos. Letra muito pequena ou grande demais, letra sem capricho ou ilegível. É comum o comentário: "Na minha época de escola fazíamos caligrafia."A aquisição da escrita não começa na alfabetização. É um processo trabalhado desde a Educação Infantil.
E onde exatamente se inicia? Desde que a criança faz seus primeiros traçados no papel em forma de rabiscos. Essa fase, chamada rabiscação evolui para a celular, com os famosos desenhos das bolinhas e, depois, para a garatuja, que são aqueles bonecos onde os braços e pernas saem da cabeça. Finalmente, a criança começa a desenhar cenas simples como uma casa com um boneco e o céu, evoluindo até a cena completa, quando coloca novos elementos no desenho e, em seguida, para cena completa com detalhes, quando enriquece a produção com pequenos objetos, novas cores, particularidades nas figuras.
Por volta dos seis anos, a criança já é capaz de produzir uma cena completa.
Os movimentos, a firmeza, a forma de se organizar no papel, o jeito de segurar o lápis, tudo isso é pré-requisito para ter uma boa letra.
Quando a criança desenha, está desenvolvendo a coordenação motora ampla, no início; e fina, mais tarde. Coordenação motora ampla quando segura o lápis fechando todos os dedos em torno dele e fazendo movimentos grandes. Coordenação motora fina já com o movimento de pinça, quando segura o lápis da forma convencional e já elabora os elementos gráficos. Por isso é indicado que se dê para os pequeninos lápis grossos do tipo giz de cera e papéis variados grandes, como o pardo ou cavalete. Com o passar do tempo, diminui-se o tamanho do papel e pode-se usar lápis de cor, canetinhas e similares. Isso porque a criança vai adquirindo habilidades como, por exemplo, a orientação espacial, que faz com que perceba os limites de onde pode desenhar. Nessa fase, sua mesa não será mais alvo de riscos e rabiscos.
Os movimentos, a firmeza, a forma de se organizar no papel, o jeito de segurar o lápis, tudo isso é pré-requisito para ter uma boa letra. E não estou falando em letra feia ou bonita. Hoje sabemos que a letra é um traço da personalidade do indivíduo e, portanto, não deve ser alterada. Mas também não pode ser ilegível. A preocupação com o desenho certo da letra deve existir, por isso é importante orientar e supervisionar a escrita durante a alfabetização.
Além do desenho, várias atividades como a pintura a dedo ou com pincéis largos e finos, modelagem com massinha ou argila, recorte e colagem, entre muitas outras, ajudam a desenvolver as habilidades necessárias para o traçado das letras.
Outra questão que aparece muito na clínica é se os pais devem ensinar a escrita em casa e como devem fazê-lo. Nesse caso, penso que a orientação da escola deve ser seguida. Normalmente, é melhor deixar o processo por conta do colégio, que tem seu próprio método de alfabetização. O bom senso e o equilíbrio são pontos importantes, ocorrendo dúvidas, os pais devem marcar logo uma entrevista com a professora ou com a equipe pedagógica. É muito natural ficarem ansiosos ou angustiados nesta fase da vida escolar de seus filhos.
Agora, e se seu filho está cursando uma classe mais adiantada e há problemas com a letra dele?
E nunca se esqueça de que a letra da criança é parte integrante de seu EU. O traçado pode agradar ou não a você. Melhor dizendo: você pode pensar que é feia ou bonita, mas essa não é a questão importante. O fundamental é que a escrita é um meio de expressão e comunicação e, para funcionar assim, a letra deve ser legível. A criança deve entender dessa forma, para que se empenhe em mudar. Aí reside a verdadeira aprendizagem, no prazer de apropriar-se de novos comportamentos, saberes e habilidades.


